O que há depois do abismo?

 


Eu estou diante de uma ponte de madeira que balança insegura sobre um abismo. O final da ponte não se vê, muito menos o que está do outro lado. Onde eu estou é seguro. Atrás de mim estão todos aqueles que dependem ou cobram de mim seja o que for, mas que, principalmente, não querem que eu atravesse a ponte. Contudo, para eu atravessá-la, são me impostas três condições: colocar duas pesadas asas sobre as costas, não levar ninguém comigo na travessia e cortar as cordas que sustentam a ponte quando chegar ao outro lado, para que ninguém me siga
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Por que o que está do outro lado só pertence a mim.

 

Porém não é fácil pagar tão caro para ver o que há depois do abismo.

 

Eu tenho as asas que, apesar de asas, são pesadas. Eu tenho uma ponte que não sei onde vai dar e tenho a culpa espremida, junto com as minhas coisas, pesando dentro da bolsa.

 

Preciso deixar as asas e levar alguém comigo na travessia, porque eu quero atravessar a ponte e quero ir pra tão longe que só  preciso que esse alguém me alcance, e mais ninguém.


No Lado Esquerdo da Cama

Um belo dia ela acorda com um lado da cama vazio e já não consegue dormir. 

Não importa o quão tarde tenha ido para cama, não importa o quão cansada, fatigada ou inerte, o fato é que ela tem um lado da cama que está vazio. Ela agora só dorme do lado direito da cama, o lado que não está encostado à parede. 
Ela dorme do lado direito por que sempre acorda mais cedo e levanta-se mil vezes para fazer mil coisas

A casa agora não faz mais tanto sentido sem ele e que a escova de dentes dele no banheiro é sempre uma importante lembrança da sua presença.
Felizmente, suspira ela, a ausência dele não é sempre constante e o vazio da cama logo é preenchido pelo pensamento nele novamente. 

Por que ela pensa que cada pessoa é como um porto, com um barquinho que navega livremente, mas que sempre tem esse tal porto para onde voltar. E ele volta para ela por que ele é o porto dela;

Contudo ela não sabe aonde tudo isso vai dar. Não sabe quanto tempo vai durar, se vai durar, se vai ficar sempre assim, dormindo do lado direito da cama. Ela não sabe e não quer saber. Não pensa sobre isso, não projeta, não sonha, não espera nada, a não ser aquilo que lhe chega às mãos todos os dias. A única coisa que ela sabe é que, por enquanto, para ele a porta da sua casa vai estar sempre destrancada, o lado esquerdo da cama e do peito também. E esse “por enquanto” ela quer ter pois é sua esperança.